Manuel Isidório de Almeida, meu avô, era um homem de elegância inquestionável. Sempre bem arrumado e cheiroso, ele tinha o costume de abotoar os botões da camisa até o último. Além de sua aparência impecável, ele tinha uma paixão ardente pela política, sempre envolvido em discussões sobre os políticos da época.
No entanto, a influência do meu avô se estendia além das discussões políticas. Ele era um benzedor na casa da minha avó, um curandeiro sábio que era muito procurado e bem-visto pelos moradores da região. Eu me lembro de ver uma fila de pessoas esperando pacientemente para serem atendidas por ele. Naquela época, eu não entendia por que tantas pessoas passavam horas ali, apenas para serem benzidas por ele.
A realidade era que a medicina era um privilégio para poucos. Aqueles que tinham dinheiro para ir ao médico eram considerados privilegiados. No entanto, nem sempre isso era possível. A alternativa era se benzer, tomar muito chá, acreditar em Deus e ter muita fé nos benzimentos, nas rezas, nas orações e assim por diante. Meu avô, com sua sabedoria e carinho, preenchia essa lacuna para muitos.
Quando ele se mudou para a cidade de São Paulo, deixou um grande vazio para seus clientes e amigos. Na metrópole, as coisas eram bem diferentes. Todo o seu conhecimento ficou restrito à família, principalmente porque ele não teve muito tempo em São Paulo.
Era carnaval, uma época que meu avô adorava. Durante o feriado, um amigo o convidou para assistir aos desfiles das escolas de samba. No caminho para a festa, eles tiveram que atravessar uma avenida muito movimentada. Os faróis não demoravam muito para mudar, e nem sempre era possível atravessar sem correr. Foi nesta avenida que meu avô foi atropelado, vindo a falecer assim que chegou ao hospital.
Apesar de sua partida trágica, seu Isidório deixou muitos ensinamentos, carinho e aprendizados. Sua influência e sabedoria continuam vivas em nossas memórias e em nossos corações.

