Desde o início deste século, a psicanálise passou por mudanças importantes. Um dos eixos mais representativos dessa mudança é o foco cada vez maior que as diversas escolas e associações de psicanálise colocam na dimensão social do ser humano.

Podemos ver em todas as tendências atuais da psicanálise – de um modo diferenciado – o impacto dessa mudança radical. Isso significa que Freud deveria ser esquecido? De jeito nenhum, mas a própria clínica e o avanço das ciências nos empurram para considerar novas abordagens. A interdisciplinaridade – externa e interna – poderia ser um eixo norteador nessa direção.

Pensamos na interdisciplinaridade externa com as outras áreas do saber: psicologia, neurociências, sociologia, estudos de gêneros, biologia, ecologia, filosofia, fenomenologia, etc. E também consideramos a interdisciplinaridade interna entre as múltiplas teorias e concepções psicanalíticas. No fim, a questão é ética: queremos colocar nossas certezas em dúvida? Conseguimos sair das nossas referências altamente personalizadas para trabalhar os assuntos da nossa clínica com as descobertas que outras áreas propõem?

Este livro aborda essas questões e oferece algumas hipóteses de interdisciplinaridade com duas áreas ricas em descobertas: as neurociências e a psicologia do desenvolvimento. Depois apresentamos a psicanálise relacional como opção de interdisciplinaridade interna, considerando seu movimento original de crítica sobre seus próprios conceitos.