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Há obras que se limitam a registrar o seu tempo, e há aquelas que, ao fazê-lo, acabam nos ajudando a interpretá-lo, situando os acontecimentos no interior de processos históricos mais amplos e desvendando as forças políticas, ideológicas e sociais que lhes dão sentido. Escritos contra os autoritários e a revolta antidemocrática, de Charles Gentil, que ganha agora nova edição, insere-se nessa segunda tradição. Hoje, felizmente, já existe uma razoável prateleira de obras publicadas que deram conta do período sombrio de emergência, força e efeitos nefastos do bolsonarismo no Brasil desde a ascensão de Jair Bolsonaro, fruto, em grande medida, dos longos e difíceis anos em que o Poder Judiciário, a República da Lava Jato no Paraná, setores da mídia e o conservadorismo brasileiro emparedaram a esquerda, o PT e seus governos progressistas. Muitos desses livros são fruto de pesquisas acadêmicas ou jornalísticas; outros, ensaísticos. Há ainda aqueles que buscam explicar faces específicas do bolsonarismo, entre as quais a vigência do discurso antipetista, a tragédia da pandemia de Covid-19, o ódio à esquerda, à ciência e ao pluralismo, a violenta política de criminalização da sociedade civil ou a liberalização desmedida de armas e munições, além dos ataques sistemáticos à democracia e da providencial resistência de nossas instituições. Todos eles compõem uma já razoável historiografia, quase em tempo real, sobre a ascensão do fenômeno bolsonarista.