• Este romance coloca num mesmo voo de pipas, e na força dos ventos que desfolham ipês amarelos, história e estórias de seus protagonistas. Nínive e Modi se envolvem com a beleza das mulheres e se preocupam com a atual impotência e agressividade dos homens, que se traduzem na crescente narrativa das crônicas policiais. Resolvem, então, montar uma clínica terapêutica de casais em crise, nas praias de São Miguel dos Milagres, Japaratinga e Maragogi, em Alagoas. Nínive, mulher belíssima, e Modi, artista que segue a linha estética do pintor italiano Amedeo Modigliani, fazem suas propostas de cura de casais, alongando e deslocando suas imagens, retirando-os de sua zona de conforto, desconstruindo e reconstruindo suas vidas para se compreenderem melhor. Ao final, Nínive e Modi propõem, num voo de escape, uma nova narrativa bíblica do livro do Gênesis, sem a presença da serpente e do pecado. E retornando de seu voo, com defeito no trem de pouso, as páginas policiais dos jornais permanecem pintadas de sangue.
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    O simbólico costuma levar o mineiro Sergio Porto a caminhos que podem ganhar forma de alegoria, como é o caso de A Arca das Sacristias de Minas, cuja narrativa é plena de parábolas. Durante a pandemia, quando se recolheu para se proteger  de um vírus devastador, Sergio Porto deixou fluir o processo criativo na produção deste romance, dando voz ao discurso literário pelo qual sempre teve inclinação. Os romances A volta do Capitão Flozinha (1991) e Café Concerto (1992) já sinalizavam sua simpatia pela literatura. Mas A Arca das Sacristias de Minas se reveste de uma singularidade: a obra não se limita ao percurso inicialmente planejado. O destino da Arca pode encontrar novos rumos até mesmo em uma boa conversa, como afirma o autor: “Foi a partir de nossa conversa [uma entrevista] que a Arca resolveu tomar novo rumo”. E, assim, passam a integrar o percurso as belas praias de Japaratinga e Barra de São Miguel, em Alagoas; Morro de São Paulo e Porto Seguro, na Bahia; Tambaú e Ponta do Seixas, em João Pessoa. Afetuoso como é, Sergio Porto não excluiria da Arca qualquer viajante motivado a ir até o CineBaru, em Sagarana, no noroeste de Minas, destino final da travessia. Quem sabe, para viver novas e lúdicas aventuras humanas nas telas do cinema, trocando o medo da morte na pandemia por novas, belas e generosas criações. Ana Lúcia Medeiros Jornalista e pesquisadora, doutora em Comunicação (UnB/Université de Rennes 1 – França)